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FRUTOS DA LIBERDADE
Aloísio da Rocha Leão
Estávamos conversando com meu amigo Guilherme e seus filhos, quando alguém veio me avisar de uma telefonada do haras: uma égua havia morrido. Já tinha vinte anos e pastava no piquete dos inativos. Logo um dos meus filhos começou a chorar. O Guilherme num comentário curto, mas carregado de subentendidos, lascou: "Por que ter égua, não é? Minha nora, sempre muito rápida no gatilho, respondeu aquilo que eu levaria um dia para ter a idéia: "E por que ter filhos!?"
Bem, aí a coisa vai longe. Sobre "Por que ter filhos" já não é matéria de HORSE BUSINESS. Talvez fosse da revista PAIS E FILHOS!
Agora, sobre porque ter éguas, porque ter cavalos, porque ter potros, eu poderia tentar, mais o certo seria começar a escrever um livro. Em 10 volumes!
Os cavalos, como os cachorros e os gatos, estão no último estágio da evolução animal. Já conviveram com o homem muito de perto, entendendo-se mutuamente. São nossos amigos íntimos. Relações de amizade que já carrearam milhões de emoções.
Ter cavalos é conviver de perto com os campos, com o calor ardido do sol, com a sombra quieta de uma árvore, com o aroma que o orvalho traz quando respinga das ramagens. Nos une mais com nossos filhos, com nossos pais. E descobrir mil sons: das águas entre as pedras, da ventania entre as folhas das palmeiras, dos cascos batendo no solo duro, dos latidos de longe, dos gritos agudos da siriema e da falação animada das tirivas. Os caipiras até comentam: "As tiriva disgraçô a tagarelá!".
E sentir a vertigem de uma corrida, rédea firme entre os dedos, pontas das botas nos estribos, o limite do perigo num salto, perceber que o cavalo está te testando e que sente prazer em correr, porque nasceu para isso!
É conviver com gramado de uma pista, com o cheiro do mato, da fumaça; com cheiro que sobe da terra molhada. Conviver com o vôo descompromissado de uma borboleta, um cachorro que vem correndo atrás, com o gato com o focinho manchado da cocheira e também com as gozações dos cavalariços enquanto afivelam os loros e prendem os látegos. Fique observando: no primeiro tempo dá um aperto na barrigueira, espera um pouquinho, e quando o cavalo não pode manter o ar, dá um segundo aperto. Não há tatu que agüente!
E acompanhar uma jovem égua dando cria, desde o momento que ela começa a afocinhar os flancos até ver o potrinho cambeteando para começar a andar. Conviver com a neblina, com as flores campestres, com o pôr do sol, que é o maior espetáculo da terra, com a natureza esfuziante... com a vida!"
Retirada da primeira revista Horse de 1992.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
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